Banda RPM posa para foto em 1986

Há 33 anos, o RPM invadia as ondas do rádio com disco ao vivo

Eduardo Maia

Para quem viveu os efervescentes anos 80, acredito que pensar que já faz 33 anos que o RPM lançou o icônico álbum Rádio Pirata Ao Vivo seja quase loucura.

O disco vendeu igual água. Fez até as fábricas ficarem sem o papel para as capas. Exclusivamente, tiveram que prensar somente esse disco, ao invés de também outros artistas, porque a demanda era, decerto, gigantesca.

Para tentar entender tal fenômeno, comparado por alguns jornalistas franceses com a Beatlemania, precisamos voltar a 1985. Naquele ano, foi lançado o primeiro disco do grupo, o Revoluções por Minuto.

Paulo Ricardo (vocal e baixo), Luiz Schiavon (teclados), Fernando Deluqui (guitarra) e, posteriormente, Paulo Pagni (bateria) se juntaram em 83 – embora Paulo Ricardo já conhecesse Schiavon, pois o músico morava na frente da casa de sua namorada.

Foto: Rui Mendes
Banda RPM em 1986

Logo, Paulo acabou cruzando com Schiavon em um ensaio e, ali mesmo, deu match entre os dois.

Alguns jornalistas defendem que esse foi o momento de insight para o RPM. Foi quando os dois músicos perceberam que podiam fazer muitas coisas juntos.

Não deu outra, anos depois, ambos fariam parte da banda mais popular da década de 80 no Brasil.

Depois de algum tempo, Paulo e Schiavon compuseram as primeiras canções juntos: Olhar 43, A Cruz e a Espada e, a música que acabaria dando título ao primeiro álbum, Revoluções Por Minuto.

Após esses momentos, os dois convidaram o super guitarrista Fernando Deluqui para assumir o instrumento e o baterista Júnior Moreno, que, à época, tinha apenas 15 anos.

Formação Original

Por ser muito novo, Moreno acabou não ficando tanto tempo na banda. Isso aconteceu porque o grupo estava começando a tocar em casas noturnas, e ele, por ser menor, não podia frequentar esses lugares.

Então, a banda convidou — pasmem — Charles Gavin para o lugar. Aquele mesmo, que seria o futuro baterista dos Titãs.

Pouquíssima gente sabe que Gavin, por um tempo, assumiu as baquetas do RPM. Em 1984, a banda acabou conseguindo um contrato com a gravadora CBS — atual Sony — e lançou o primeiro compacto, com a faixa Louras Geladas, que estourou em discotecas por todo o Brasil.

Foto: Ana Paula Amorim
Charles Gavin

Inclusive, é a primeira música a ser remixada na história do país. Além dela, teve também a faixa Revoluções Por Minuto, que acabou sendo censurada.

Nesse meio tempo, o já saudoso baterista Paulo Pagni, que faleceu no último mês de junho, se juntou ao grupo como convidado.

Depois, acabou sendo efetivado, pois Gavin decidiu seguir carreira no Titãs. Por ter entrado depois do início das gravações do disco, P.A, como Pagni era chamado, não figura na capa do álbum.

“Quando o Schiavon me ligou, me convidando para tocar na banda, achei que o nome era ORTN. Nunca tinha ouvido falar em RPM”, recorda P.A, em entrevista.

leia também: Fresno inova e lança “sua alegria foi cancelada”, oitavo álbum de estúdio da banda

Revoluções Por Minuto

Em maio de 1985, chegava às lojas o primeiro disco da banda. Com a produção de Luiz Carlos Maluly, o álbum contém o Lado A extremamente comercial e o Lado B surpreendentemente sombrio.

Uma das características marcantes é o uso da bateria eletrônica pelo P.A já nesse disco de estreia.

Foto: Divulgação
Capa do disco Revoluções Por Minuto

Isso casava perfeitamente com a sonoridade tecnológica que o grupo propunha e com os teclados “futurísticos e sombrios” de Schiavon.

“O P.A introduziu ao RPM a famosa bateria de pads da marca Simmons. Para a época, era uma modernidade diferenciada para a banda”, destaca, em entrevista, o engenheiro de som Guilherme Canaes.

Aqui tivemos músicas clássicas, os famosos hit singles. Das onze canções do disco, oito tocaram nas rádios.

Além das que eu citei acima, destaque para a politizada Juvenília, que critivaca a recém época do Regime Militar; Rádio Pirata; a maravilhosa Sob a Luz do Sol, que é composição também de Fernando Deluqui e a hiper sombria Liberdade/Guerra Fria. Que linha de baixo tem essa última…

Aliás, falando em composições, é legal a gente lembrar que o Paulo Ricardo e Schiavon tinham um acordo parecido com o de Lennon e McCartney, ou mesmo Erasmo e Roberto. Independente de quem compusesse as canções, os dois receberiam os créditos. Legal, né?

Foto: Reprodução
Paulo Pagni, Paulo Ricardo, Luiz Schiavon e Fernando Deluqui

Rádio Pirata Ao Vivo

Com o sucesso avassalador do primeiro disco, que em um ano, vendeu cerca de 1 milhão de cópias, veio a surpreendente ideia: fazer um disco ao vivo com somente um álbum de estúdio lançado.

Vocês acreditam nisso? Quais eram as chances disso dar certo? Deu. Pra caralho.

Isso tudo aconteceu porque, em um show, alguém acabou gravando, através de uma cassete, a execução da música London London (1971), de Caetano Veloso, e essa pessoa divulgou para as rádios.

Isso fez a música tocar, incansavelmente, durante semanas e semanas. Por consequência, a banda perdia dinheiro, pois a música não havia nem sido gravada.

Foto: Reprodução
Capa do Rádio Pirata Ao Vivo

Essa foi a desculpa perfeita para fazer o ao vivo e regravar London London. Para isso, a banda acabou contratando o então empresário de Roberto Carlos e conhecedor do show business do Brasil, Manoel Poladian.

Além disso, o show contou com direção de Ney Matogrosso. Aliás, a própria banda, até hoje, reconhece a importância de Ney para eles. Segundo os integrantes, Ney os ensinou a se portar em palco. A serem, de fato, músicos.

Show

Foi uma catarse! O disco, gravado no Pavilhão de Convenções do Complexo do Anhembi, em São Paulo, nos dias 26 e 27 de maio de 1986, teve uma produção tecnológica insana.

Foto: Reprodução
Paulo Ricardo em 1986

Foi na ocasião, com o Ney, que a banda passou a apostar muito em luzes, canhões, gelo seco e até mesmo leasers para compor o espetáculo. Não era apenas a música, era o conjunto, era o visual.

Além de contar com os hits do disco anterior e a aclamada London London, contou também com Flores Astrais (1974), dos Secos & Molhados.

Um outro dado interessante é que na ocasião, a banda gravou a música instrumental Naja, que é a única do gênero na história do país a figurar no top 10 das mais tocadas em rádios. Doideira, né?

O disco chegou às lojas no dia 28 de julho de 1986 e vendeu nada mais nada menos que mais de três milhões de cópias até hoje. Ele figura como o quinto álbum mais vendido da indústria fonográfica nacional e, sem dúvidas, é o maior fenômeno do rock anos 80.

Considerações finais

É considerado por muitos jornalistas, engenheiros de som, produtores e empresários como o melhor disco ao vivo do rock nacional.

Admito não discordar disso. Para 1986, a mixagem é muito diferenciada. O som é extremamente limpo, sendo possível ouvir com clareza todos os instrumentos e, a voz do Paulo Ricardo está tão boa como nunca.

O sucesso que esse disco trouxe para o grupo foi tão grande que, nesse mesmo ano, a banda foi tema de um programa inteiro do Globo Repórter. Na época, comandado por Pedro Bial.

Foto: Divulgação

Entretanto, para a banda, talvez não tenha sido tão boa a grande exposição dada pelo disco.

Desde o lançamento do álbum, foram mais de duzentos shows em todo o Brasil, incluindo rádios, programas de televisão e casas noturnas, como a lendária Madame Satã, em São Paulo.

Isso tudo, misturado com o excesso de drogas, fez com que a relação da banda se desgastasse e eles se separassem pela primeira vez em 1987.

Mas, isso é assunto para outro texto. Acreditem, só as separações da banda rendem um texto exclusivo (e grande).

O restante…

Depois disso, entre términos e retornos da banda, tivemos os seguintes discos lançados:

RPM & Milton (1987) – Com as faixas Homo Sapiens e Feito Nós;

RPM – Quatro Coiotes (1988);

Paulo Ricardo & RPM (1993) – Alguns consideram como parte da discograifia, outros não;

MTV RPM (2002);

Elektra (2011);

No momento, Paulo Ricardo segue carreira solo. Contudo, a banda, mesmo sem o vocalista e com a recém morte do “Gnomo” P.A, segue na estrada.

Agora, conta com o vocalista e baixista Dioy Pallone e o novo baterista, Kiko Zara.

Sejam bem-vindos e, façam a revolução! Logo, farei um texto exclusivamente sobre a nova fase da banda. O rock salva, amigos!

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Foto: Reprodução /// Dioy Pallone, Luiz Schiavon, P.A e Deluqui (2018)

Comprem o disco //// ouçam o disco.

Dica do autor: por fim, se você deseja se debruçar sobre a história da banda, indico o livro Revelações Por Minutos (2007), de Marcelo Leite de Moraes.

02 comments on “Há 33 anos, o RPM invadia as ondas do rádio com disco ao vivo

  • Sinval Pinheiro da Silva , Direct link to comment

    Futuro colunista de crónicas da história da nossa música.
    Parabéns garoto, o sucesso te aguarda.

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