Minhas mãos, meu Cavaquinho, esse era Waldir Azevedo

Pedro Henrique Bacalhau

Waldir Azevedo, foi músico, instrumentista e compositor, nascido na capital carioca no ano de 1923. É autor das grandes composições Delicado, Brasileirinho, Pedacinhos do Céu e muitas outras que fazem parte das rodas de choro de todo o país até hoje. Nascido no bairro do Engenho Novo no Rio de Janeiro, ainda quando era criança, o menino Waldir já se interessava por música. Comprou seu primeiro instrumento musical, uma flauta transversal com o dinheiro que ganhava capturando passarinhos e depois os vendendo. Waldir sonhava em ser aviador, mas teve de largar o sonho da aviação por conta que havia problemas cardíacos e com isso, acabou virando funcionário na companhia elétrica do Rio de Janeiro, a Light.

Infância e seu primeiro contato com a música

Iniciou sua carreira musical, em 1933 quando tinha 10 anos de idade quando se apresentou em público pela primeira vez como flautista tocando Trem Blindado, do compositor Carlos Alberto Ferreira Fraga, o João de Barro. Em sua adolescência, acabou por trocar a flauta pelo bandolim, por influência de seus amigos, sendo assim mais tarde, trocou o bandolim pelo cavaquinho, instrumento ao qual Waldir se consagrou. Artisticamente, Waldir iniciou sua carreira no ano de 1940, quando montou um conjunto regional e passou a fazer apresentações em diversos programas de calouros. Com isso, no ano de 1942, Waldir Azevedo foi campeão de dois desses shows de calouros, recebendo assim a nota máxima ao executar o choro “Camburá” de Pascoal de Barros, no Violão. Logo depois, foi contratado pela Rádio Guanabara, e no ano de 1943, passou a integrar o conjunto regional de César Moreno. Dois anos depois, ficou sabendo de uma vaga de cavaquinista no grupo regional do violonista Dilermando Reis, em um programa da Rádio Clube do Brasil. 

Brasileirinho, os primeiros anos de Rádio Clube do Brasil e seus primeiros discos solo

No final da década de 40, em 1949, compôs o seu grande sucesso, Brasileirinho sendo também gravado e reconhecido com grande sucesso na versão cantada por Ademilde Fonseca. Ainda no mesmo ano, Waldir Azevedo ainda trabalhando na Rádio Clube do Brasil foi ouvido por Braguinha, compositor e diretor artístico da gravadora Continental, convidando assim Waldir a gravar com seu regional o seu primeiro disco, interpretando as suas grandes canções Carioquinha e Brasileirinho, que mais tarde se tornaria um clássico da música brasileira com inúmeras regravações e execuções. No ano de 1950, Waldir gravou seu primeiro disco solo pelo selo Continental interpretando no cavaquinho, dois choros, Cinco Malucos, seu choro autoral e O Que é Que Há, do violonista Dilermando Reis, assim como  Quitandinha com Salvador Miceli e Vai por Mim de Francisco Sá e no mesmo ano registra o seu primeiro baião, intitulado “Delicado”, que além de ter se tornado um grande sucesso ao longo dos anos, se tornou um clássico da música brasileira. Entre os anos de 1951 e 1952, Waldir Azevedo compôs mais alguns choros como Pedacinhos do Céu, que hoje é muito famoso entre os chorões nas rodas de choro mais tradicionais, Camundongo, Paulistinha e Cachopa no Frevo. No ano seguinte, 1953, Waldir Azevedo gravou a valsa Chiquita e em parceria com Fernando Ribeiro, Mágoas de um Cavaquinho. Além disso, outras músicas de cunho mundial foram executadas pelas cordas do cavaquinho de Waldir, como Ave Maria de Gounod e Bach. E ao longo da década de 1950, Waldir em parcerias com seus colegas chorões, várias músicas que fizeram parte do repertório dos regionais, como Voo do Marimbondo, Brincando com o Cavaquinho, Amigo do Rei, Madrigal e Na Baixa do Sapateiro, composta em 1955.

Anos 60, o seu hiato da música e o retorno para gravações como instrumentista

Em 1960, Waldir gravou os choros “Contando tempo”, de sua autoria e “Catete”, de Humberto Teixeira. EM 1961, com seu quarteto, de sua autoria, gravou o choro “Jogadinho” e a valsa “Você, carinho e amor”. No mesmo ano, lançou o LP “Waldirizando e seu Conjunto”, no qual interpretou, entre outras composições, a música título, “Balada oriental” e “A voz do cavaquinho”, todas autorais. Com o multi-instrumentista Poly, no ano de 1962 lançou o LP “Dois Bicudos Não se Beijam” no qual executaram “Boogie Woogie na Favela” de Denis Brean, e outras canções como “A Voz do Violão” e de “Papo pro Ar”. No ano de 1964, a vida de Waldir Azevedo teve de dar uma pausa, devido  um episódio trágico em sua vida pessoal, a morte precoce aos 18 anos de sua filha, afastando-se por um tempo da música. No seu retorno ao mundo do choro no ano de 1965, lançou o LP “Melodia do Céu” pela gravadora Continental, onde os choros “Turinha”, “Guarânia sertaneja”, “Você”, “Melodia do céu”, “Tema Nº 1”, “Chorando Escondido” e “Alvoroço” estiveram presentes. Waldir então retorna aos estúdios no ano de 1967, para poder gravar o LP “Delicado”, tocando variados clássicos da música brasileira, entre esses clássicos, “Asa Branca” do rei do baião, Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, sendo esse o seu último grande trabalho na carreira de instrumentista.

Mudança de ares e aposentadoria da Rádio Clube do Brasil, os anos 70 de Waldir Azevedo

Nos anos 70, Waldir Azevedo então, se aposenta da Rádio Clube do Brasil, e no ano seguinte, muda totalmente os ares, saindo da capital carioca para a capital federal, Brasília. No mesmo ano, Waldir sofre um grave acidente com um cortador de grama ao qual quase lhe custou um dedo, ficando um tempo fora do meio artístico para fazer os tratamentos necessários. No meio da década de 70, em 1975, após realizar cirurgias corretivas a respeito do dedo e longas sessões de fisioterapia, Waldir Azevedo então retorna às suas atividades musicais, regravando o LP “Melodia do Céu”, gravado 10 anos antes. Em 1976, grava o LP “Minhas Mãos, meu Cavaquinho”, título que homenageava Cléa Mara Novelino, que pintou um quadro de Waldir, o intitulando com o mesmo nome e que foi premiado em um salão de Belas Artes. Mas Waldir tinha motivos para agradecer até na música, na faixa “Minhas Mãos, meu Cavaquinho” (título homônimo que dava nome ao LP), ao final dela, incluiu trechos de Ave Maria, de Gounod e Bach em agradecimento ao seu retorno à vida artística. Com sua mudança para Brasília, Waldir foi um dos fundadores do Clube do Choro de Brasília. Já no ano de 1977, lança mais um LP, interpretando canções como “Flor do Cerrado”, “Brejeiro”, “Chão de Estrelas”, “É do que Há”, “Vassourinhas”, “Choro Negro”, “Flor de Abacate”, “São Paulo Quatrocentão”, “Magoado”, “Cavaquinho Seresteiro” e “Contraste”. Em 1978, grava mais um LP, intitulado “Lamento de um Cavaquinho” e em 1979, é homenageado em uma grande roda de choro em comemoração aos seus 30 anos de sucesso, que estiveram grandes nomes do choro como Paulinho da Viola, Raphael Rabelo, Ademilde Fonseca, Arthur Moreira Lima, Paulo Moura, Copinha, e Braguinha.


A morte de Waldir Azevedo e o seu legado para a história do choro

Em 1980, começa a produção de um outro álbum, e como Waldir era muito meticuloso em seu trabalho, gravou instruções em uma fita cassete tanto para os músicos que os acompanhariam, como também para o mestre Messias, mas acaba falecendo antes das gravações deste álbum, aos 57 anos, sendo encarregado pelo músico Canhotinho para as gravações que o substituiu, e lançado após a sua morte. O pesquisador, compositor e jornalista Sérgio Cabral, fala que Waldir Azevedo tem uma qualidade que é inerente aos músicos fora de série. Waldir tinha um desejo de se aprimorar em cada palhetada, onde cada nota soa como uma manifestação de extremo bom gosto. Em 1999, Waldir foi homenageado por ocasião dos 50 anos da sua maior composição, Brasileirinho, sendo até lançado um songbook, com a presença de Beto Cazes, Henrique Cazes, Omar Cavalheiro e Marcelo Gonçalves. Waldir Azevedo deixou mais de 70 obras de sua autoria e gravou mais de 200 músicas, sendo assim um marco na história de execução de cavaquinho. Durante 11 anos, Waldir Azevedo viajou com seu conjunto por países da América do Sul e Europa, incluindo duas viagens patrocinadas pelo Itamaraty na Caravana da Música Brasileira, criada pela Lei Humberto Teixeira. Suas composições tiveram gravações no Japão, Alemanha e Estados Unidos, onde o maestro canadense Percy Faith e sua orquestra atingiram a marca de um milhão de cópias vendidas com uma gravação de Delicado. Waldir chegou a participar de um programa na BBC de Londres, transmitido para mais de 50 países, além de também ter excursionado pelo Oriente Médio.

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